Dia Mundial de Áreas Úmidas – entrevista com Cátia Nunes da Cunha

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As Áreas Úmidas são ecossistemas vitais para a vida na Terra. Fornecem alimento para milhões de pessoas, dão abrigo para 40% dos seres vivos e ainda são nossas grandes aliadas contra os eventos climáticos extremos e as mudanças climáticas.

Todo dia 02 de fevereiro é comemorado o dia Mundial das Áreas Úmidas. Para celebrarmos a data entrevistamos uma das maiores especialistas do tema no Brasil, Cátia Nunes da Cunha, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas úmidas (INAU-CNPq/ UFMTu.

Assunto: Vista aérea das lagoas no Pantanal de Nhecolândia Local: Corumbá-MS Data: 05/2017 Autor: Andre Dib

Por quê falar de Áreas Úmidas?

Desde cedo aprendemos na escola o que são os oceanos, savanas e as florestas. Visitamos essas áreas por turismo e lazer, mas a história é outra quando falamos sobre as áreas úmidas. Quando nos perguntam sobre as áreas úmidas, a maioria de nós ou não sabe o que são ou pensa que são lugares com muitos mosquitos, que atolam nossos carros e sujam nossos sapatos. Elas são vistas como “pântanos” inconvenientes para nossa vida urbana.

Essa ideia superficial cria uma certa invisibilidade para as áreas úmidas, zonas vitais para a vida na Terra. E o que vemos é que os recursos hídricos e as áreas úmidas estão se esgotando rapidamente. Essa situação não só se agravará com as mudanças climáticas, mas também a ausência delas ampliará a intensidade das secas, de inundações nas cidades da perda de meios de subsistência.

E o que são as Áreas Úmidas?

As áreas úmidas são aquelas áreas da paisagem que armazenam água por períodos suficientes para produzir tipos de solo que mostram características de inundações e que dão condições a espécies de plantas prosperarem em situação de umidade. Elas podem ser desde áreas muito úmidas (brejos) até quase seca ou que secam temporariamente.  São frequentemente encontradas na interface entre ecossistemas terrestres e aquáticos e são fortemente dependentes do ciclo da água.

Algumas áreas úmidas são florestas inundadas, cheias de árvores (mata ciliar, várzeas, igapós). Outras são mais como savanas planas e inundáveis de gramíneas, como grandes extensões do Pantanal.

Qual a importância delas para o mundo – em termos biológicos e econômicos?

As áreas úmidas podem ser consideradas como “supermercados biológicos”. Em termos biológicos fornecem grandes volumes de alimentos                                                                  e que atraem muitas espécies de animais. Esses animais usam as áreas úmidas durante parte ou todo o seu ciclo de vida. Folhas e caules de plantas mortas caem na água para formar pequenas partículas de material orgânico chamadas “detritos”. Este material alimenta muitos insetos aquáticos, mariscos e peixes pequenos, que por sua vez são alimentos para peixes predadores maiores, répteis, anfíbios, pássaros e mamíferos.

As áreas úmidas fornecem valores que nenhum outro ecossistema pode fornecer, se fossemos exemplificar teríamos uma lista quase infinita.

São fonte de água potável. Podem ser usadas para agricultura e aquicultura na produção de nossos alimentos. Filtram a água e melhoram a sua qualidade e quantidade. Apoiam a biodiversidade da qual dependemos e oferecem várias oportunidades recreativas, turísticas e culturais.

O processo natural de filtragem da água se dá quando ela entra em uma área úmida, em um brejo, por exemplo, quando a água entra ali a velocidade de seu fluxo diminui e grande parte do sedimento suspenso se instala no solo. As plantas removem o excesso de nutrientes e químicas tóxicas presentes nessa água, tornado ela mais saudável para beber e usar.

Embora possa ser difícil calcular o valor econômico fornecido por uma única área úmida, é possível avaliar as maneiras importantes pelas quais elas contribuem para a economia incluindo madeira, pesca, fibras, arroz selvagem e alguns fármacos.  Segundo relatórios da Convenção Ramsar, fornecem alimento para mais de 01 bilhão de pessoas. Cerca de 40% das espécies se alimentam e vivem nelas e ainda, essas zonas estocam 30% do carbono no solo.

Num cenário de mudanças climáticas e aumento de eventos climáticos extremos, qual a importância delas?

As áreas úmidas absorvem e armazenam naturalmente grandes quantidades de carbono. São os sumidouros de carbono mais eficazes da Terra. Quando drenadas, liberam grandes quantidades desse carbono. As turfeiras, por exemplo, cobrem cerca de 3% da terra do nosso planeta e armazenam aproximadamente 30% de todo o carbono terrestre, ou seja, o dobro da quantidade que todas as florestas do mundo armazenam juntas.

Em períodos de seca, elas funcionam como caixas d’água naturais, aliviando o calor e fornecendo água para pessoas, animais e plantas. Em momentos de chuvas intensas, como as que vimos recentemente em Minas Gerais, elas servem como ambientes de escoamento dessa água, recebendo todo excedente e ainda reduzem a velocidade do seu fluxo. Gerando assim uma proteção natural para as pessoas.

Sem nenhum custo, elas desempenham um papel importante na adaptação às mudanças climáticas. Capturando e armazenado carbono para reduzir os gases do efeito estufa e fornecendo resiliência a riscos como inundações, tempestades, ressacas, entre outros.

Nessa semana o país todo acompanhou em estado de choque as enchentes em Minas Gerais. Como elas podem nos proteger dos eventos climáticos extremos como esses?

Ao canalizar córregos e aterrarem as áreas úmidas adjacentes, que absorviam o impacto das águas durante períodos de grandes chuvas, o excedente de água não tem outro caminho a seguir. Ele toma de volta seu antigo leito, derrubando as habitações e destruindo ruas e cidades.

Infelizmente o que temos visto é um movimento acelerado da degradação das áreas úmidas por processos de urbanização sem planejamento. No Brasil, além da canalização e aterramento, é comum a prática do lançamento de esgoto sanitário sem tratamento nos corpos hídricos.

Essa expansão urbana sem planejamento estratégico causa danos não apenas aos animais e vegetação que a habitam, mas também a nós. Por isso é hora de cobrarmos dos gestores publicos execução de um  plano de gestão, de forma a minimizar esses impactos e também é hora de  começarmos a prestar mais atenção para as Áreas Úmidas.

Professora Dra Cátia Nunes da Cunha, pesquisadora do Instituo Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas úmidas. CNPq/ UFMT. Pesquisadora associada da Universidade Federal de Mato Grosso e doCentro de Pesquisa do Pantanal.

*Créditos da Foto: Portal Rosa Choque

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